Quando um e-mail de preços acende um movimento
Tudo começou com uma simples consulta: Megan Mesveskas, fundadora da agência de diversidade corporal Model Nexus, procurou um fotógrafo conhecido de Nova York para agendar ensaios de teste para suas clientes. A resposta que recebeu, no entanto, não foi tão simples. O e-mail cotava US$ 950 para fotografar uma modelo "padrão" e US$ 1.050 para uma modelo "plus/curva" — uma sobretaxa de US$ 100 que Mesveskas achou tão descarada que compartilhou no TikTok. Em poucos dias, o print viralizou, provocando indignação e um debate acalorado sobre imagem corporal, economia e os preconceitos profundamente enraizados na indústria da moda.
O fotógrafo, William Lords, que já fotografou para a Vogue Arábia e trabalhou com celebridades como Katie Holmes, rapidamente se tornou o centro de uma tempestade nas redes sociais. Mas, à medida que a história se desenrolava, um quadro mais complexo emergia — um que levanta questões desconfortáveis sobre diversidade, inclusão e os custos ocultos da mudança.
O homem por trás das lentes: a defesa de William Lords
Lords não ficou em silêncio por muito tempo. Em entrevistas ao New York Post e outros veículos, ele explicou que seu preço não era uma questão de discriminação, mas de necessidade prática. Como fotógrafo e stylist desses ensaios de teste, Lords busca roupas de grife de alto padrão para as modelos usarem — um empreendimento caro que ele financia do próprio bolso.
"Quando comecei a fotografar modelos curvilíneas, descobri que era muito difícil conseguir roupas porque nenhuma modelo curvilínea tem o mesmo corpo", disse ele ao The Independent. "Receber tanto ódio por US$ 100 quando gastei milhares de dólares com essas garotas para garantir que elas façam parte da indústria de alto padrão é muito errado."
Lords afirma que amostras de grife nos tamanhos 0 a 4 são abundantes e fáceis de emprestar ou comprar, mas tamanhos maiores são escassos, muitas vezes mais caros e raramente disponíveis na variedade necessária para um ensaio de portfólio profissional. A sobretaxa de US$ 100, segundo ele, mal cobre o esforço e a despesa extras.
A reação no TikTok: modelos se manifestam
O vídeo inicial de Mesveskas, que ultrapassou 100 mil visualizações, tocou um nervo. A colega modelo curvilínea Sixtine Rouyre, que tem mais de 600 mil seguidores no Instagram e no TikTok, o repostou com um comentário mordaz: "Este é apenas mais um exemplo de como a indústria da moda é horrível com literalmente qualquer pessoa acima do tamanho zero."
A resposta foi imediata e avassaladora. Milhares de comentaristas expressaram frustração, com muitos chamando a política de preços de "gordofóbica" e "discriminatória". Para Mesveskas, a sobretaxa parecia uma penalidade por simplesmente existir em um corpo maior. "Nunca na minha vida vi um fotógrafo cobrar descaradamente mais caro por modelos que ele considerava curvilíneas ou plus", disse ela.
Mas Lords ficou surpreso com o vitríolo. "É fácil atacar algo que você não entende", disse ele ao Post. "Sou um homem negro na América, e duas mulheres brancas me dizem que estou discriminando [contra] elas? Estou muito magoado com isso. Ninguém está contando a história verdadeira."
Os custos ocultos de vestir modelos plus-size
A explicação de Lords lança luz sobre uma realidade menos conhecida da indústria da moda: roupas de grife plus-size são mais difíceis de encontrar, mais caras e menos variadas. Grandes estilistas costumam produzir tiragens limitadas em tamanhos maiores, e os tamanhos de amostra — os usados para ensaios fotográficos — são notoriamente pequenos. Essa escassez força os stylists a encomendar peças especiais ou se contentar com marcas menos prestigiadas, o que pode prejudicar a qualidade do portfólio da modelo.
"Eu saio por aí com meu próprio cartão — meu cartão de débito — para comprar roupas", disse Lords. "Elas custam quase milhares de dólares." A taxa de US$ 100, ele insiste, é uma tentativa modesta de recuperar parte desse custo sem transferir todo o ônus para as modelos. No entanto, os críticos argumentam que essa lógica ainda penaliza a modelo por uma falha de toda a indústria. Como Mesveskas apontou: "Se Lords quer ser stylist e fotógrafo, tudo bem, mas faça as contas de como você pode cobrar um preço justo para todos."
O debate mais amplo: diversidade corporal na moda
Este incidente não é isolado. Ele toca em uma conversa de longa data sobre o tratamento da indústria da moda com qualquer pessoa acima do tamanho zero. Embora modelos plus-size estejam ganhando visibilidade nas passarelas e em campanhas, elas ainda enfrentam barreiras sistêmicas — desde opções limitadas de roupas até remuneração desigual e estereótipos.
O termo "plus-size" em si é controverso. Na moda, muitas vezes se refere a qualquer pessoa acima do tamanho oito, enquanto as roupas plus-size normalmente começam no tamanho 16. Essa desconexão destaca como a indústria categoriza e mercantiliza os corpos. Para Mesveskas e Rouyre, a luta não é apenas por US$ 100 — é sobre desafiar um status quo que consistentemente desvaloriza corpos não padronizados. "Não acho que focar apenas em Lords seja útil", disse Mesveskas. "Mas se pudermos continuar a lançar luz sobre a forma como as modelos consideradas 'não padrão' são tratadas, podemos continuar a minar o status quo."
O desfecho: ameaças legais e repercussões na indústria
Lords, sentindo-se injustamente visado, considerou tomar medidas legais contra Mesveskas e Rouyre, chamando seus vídeos de "campanha difamatória". Ele mais tarde decidiu cobrar o mesmo preço para todas as modelos, mas o dano estava feito. Os comentários em seu Instagram foram desativados após uma enxurrada de críticas, e o incidente gerou ampla cobertura da mídia.
Para Lords, a provação foi profundamente pessoal. "Não é um caso de eu ser mau com as modelos", disse ele ao Post. "É um caso de eu cobrar cem dólares porque me esforço mais em algo. É só por isso que estou cobrando. Não sou o vilão que estão fazendo de mim." No entanto, para muitos, a explicação — por mais lógica que seja — não apaga a dor de ter um preço diferente por causa do tamanho do corpo.
Seguindo em frente: rumo a preços justos e inclusivos
A controvérsia forçou um acerto de contas dentro da indústria. Alguns fotógrafos e agências agora estão reavaliando suas estruturas de preços, reconhecendo que sobretaxas baseadas no tamanho do corpo podem perpetuar normas prejudiciais. Ao mesmo tempo, a conversa destacou a necessidade de maior disponibilidade de roupas de grife plus-size — uma lacuna que, se resolvida, poderia eliminar a justificativa econômica para tais taxas.
Em última análise, o alvoroço sobre US$ 100 é um sintoma de um problema maior: um ecossistema da moda que ainda trata corpos não padronizados como exceção, e não como norma. Como Mesveskas e Rouyre mostraram, as redes sociais podem ser uma ferramenta poderosa de responsabilização, mas também exigem nuance. A história de Lords nos lembra que por trás de cada política de preços há pessoas reais — e que a verdadeira inclusão exige mais do que apenas tarifas ajustadas; exige uma mudança fundamental na forma como a indústria valoriza e acomoda todos os corpos.
